Numa casa de comodos caindo aos pedacos, moram Dona Creuza e seu filho, um rapaz calado, seduzido pelos corpos masculinos que circulam pela pensao. Entre seus habitantes, justamente o mais contido e o que se mostra mais intenso, ao assumir uma paixao tao devastadora quanto efemera com um novo morador. Rato e o pseudonimo do protagonista e narrador do romance de Luiz Capucho. Dele, o leitor conhece os sonhos e desejos, mas jamais o nome. O jovem e sustentado pela mae, lavadeira e passadeira, e coabita com tipos bizarros, como bebados, drogados, lunaticos, marinheiros e aposentados, entre outros moradores. Ele passa os dias nesta atmosfera embriagante, desejando os hospedes mais jovens, deitado em seu beliche ou escrevendo na cozinha tendo uma garrafa termica por companhia. Rato nao trabalha, mas acredita que a literatura ainda vai salva-lo e tira-lo dessa realidade inebriante. Ao usar apenas um pseudonimo, Capucho faz de Rato ao mesmo tempo todos e qualquer um. A mascara encobre o nome de seu protagonista, mas o deixa livre para escancarar sentimentos, exacerbar impressoes, descrever detalhes de dor e de prazer. Com habilidade, Capucho descreve o ambiente, os personagens exoticos e a singeleza da mae de Rato, que o sustenta e acho isso normal, a rotina de tedio e tesao do rapaz. Conquistado pela narrativa, o leitor se surpreende pela agudeza da percepcao, da visao de mundo de Rato, que mesmo em seu restrito universo vivido, percebe seu tempo com uma sensibilidade profunda e cortante.